Muito se tem dito sobre a temperatura ideal para se servir um vinho. Especialmente, muito preconceito e muita informação errada tem sido espalhado. O engano mais comum é se achar que vinho tinto tem que ser servido à temperatura ambiente. A origem dessa idéia provavelmente vem dos países temperados, onde adegas subterrâneas mantém uma temperatura em torno de 12-14ºC, mesmo no verão. Na França, por exemplo, se fala em "chambrer" o vinho, isto é, tirá-lo da adega algumas horas antes de servir e deixá-lo chegar na temperatura do ambiente onde vai ser servido. Mas isso é muito bom para os países temperados, onde frequentemente a temperatura da sala de estar é cerca de 18ºC.
No Brasil, com nossas temperaturas tropicais, servir o vinho à temperatura ambiente significa tomá-lo a uma temperatura que pode facilmente chegar a 22 ou 24ºC. Só que esta temperatura é totalmente inadequada, mesmo para os vinhos tintos mais encorpados. Nesta temperatura, o álcool do vinho será ressaltado, encobrindo os outros aromas, mais nobres e mais delicados.
Os especialistas indicam que os vinhos tintos devem ser consumidos a temperaturas que variam entre 10ºC e 18ºC, mais baixas para os vinhos leves (como um Beaujolais nouveau), e as mais altas para os tintos secos encorpados (como um Bordeaux). Os vinhos brancos são servidos a temperatura que variam de 5ºC a 12ºC.
Essas temperaturas, em torno de 14-15ºC, são também ideais para o armazenamento do vinho, que deve ficar em lugar escuro, e com umidade na faixa de 50-60%. Para isso, adegas climatizadas são vendidas no mercado, mas a um custo que eu prefiro deixar para investir em bons vinhos...
Uma solução mais barata, é transformar uma geladeira comum, de forma a fazer com que ela trabalhe na faixa de temperatura que se deseja, ou seja, em torno de 15ºC. Os puristas vão dizer que não é a mesma coisa. E não é mesmo. Uma boa adega climatizada é construída de forma que as vibrações do compressor sejam neutralizadas para evitar a formação de sedimento nos vinhos. A umidade também é controlada e mantida dentro da faixa ideal. Mas se você não vai comprar vinhos caríssimos e nem mantê-los por anos a fio guardados, a diferença na prática é mínima. E o custo da geladeira adaptada é muito menor.
Eu tirei a idéia desta adaptação do projeto de Geladega de Miguel De Maria Junior (veja a página www.academiadovinho.com.br/geladega/). Ele propõe utilizar uma geladeira da Bosch e um termostato Full Gauge MT-511 R. Há dois problemas com esta abordagem. As geladeiras recomendadas saíram de linha e o termostato indicado é bem caro.
Assim, saí atrás de alternativas e acabei escolhendo uma geladeira da Electrolux, a RDE 32. Infelizmente não achei um modelo que não tivesse congelador, mas a posição das prateleiras desse modelo (que vem com três) é favorável para garrafas e se pode colocar duas prateleiras adicionais. Cada prateleira comporta 6 garrafas, o que dá um total de 30 garrafas nas prateleiras, além das gavetas e das portas. A geladeira nesta temperatura também é muito boa para guardar chocolates, manteiga, ou mesmo frutas. O preço da geladeira ficou em torno de R$ 900.
O termostato que usei é o Full Gauge TIC-17 RGT. Ele é mais barato que o MT-511, basicamente porque o mostrador não apresenta décimos de grau na faixa em vamos usar – custa cerca de R$ 80. De resto, é basicamente a mesma máquina. Além do preço, este é um modelo mais fácil de encontrar nas lojas de material de refrigeração. Ele pode ser ligado em 110v ou 220v, e serve para muitas aplicações, em refrigeração e aquecimento. O site da Full Gauge é www.fullgauge.com.br.
A idéia da Geladega é simplesmente ligar a geladeira num segundo termostato que só aciona a geladeira numa temperatura acima do termostato original (cerca de 15ºC), que trabalha com uma temperatura perto de 5ºC. O inconveniente disso é que quando o termostato externo está desligado, a luz da geladeira não se acende ao abrir a porta.
Aqui apresento uma modificação um pouco mais complicada de implementar, mas que evita o problema da luz apagada. Isso implica na substituição do termostato original pelo termostato digital. O processo não é complicado, mas temos que fazer uma "operação" na geladeira.
O modelo de geladeira escolhido oferece uma vantagem porque o termostato fica embaixo da tampa superior, o que facilita grandemente o processo. Então, vamos lá! Você vai precisar de algumas ferramentas, um pouco de experiência com equipamentos elétricos, e uma dose de paciência. Também pode pedir para um técnico fazer o trabalho para você. Com o roteiro abaixo fica fácil.






Eu pensei em deixar o visor do termostato à vista. Mas ia dar muito trabalho para recortar a tampa da geladeira. Assim, deixei ele escondido embaixo da tampa. Funciona igual...
No verão, a Geladega é ótima para guardar também os destilados, especialmente um conhaque, que não gosto de saborear muito quente.